A menor ideia
Luis Fernando Verissimo
A escrita nasceu da necessidade de não esquecer. O primeiro pré-homem que pensou "preciso me lembrar disto" deve ter olhado em volta e procurado alguma coisa que ele ainda não sabia o que era. Era um lápis e um pedaço de papel. Claro que para chegar ao papel e ao lápis tivemos que passar pelo rabisco com carvão na parede da caverna, pelo hieróglifo cavado no tablete de barro etc. Mas a angústia primordial foi a de perder o pensamento fugidio.
Imagine quantas boas ideias não desapareceram para sempre por falta de algo que as retivesse na memória e no mundo. A história da civilização teria sido outra se, antes de inventar a roda, o homem tivesse inventado o bloco de anotações.
As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa. O elefante guarda tudo que lhe acontece na vida, principalmente as desfeitas, na memória, mas vá pedir que ele bote alguma coisa no papel. Já o homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota.
Nas sociedades não letradas as lembranças sobrevivem na recitação familiar e no mito tribal, que é a memória ritualizada. Todas as outras dependem do memorando.
E, mesmo com todas as formas de anotação inventadas pelo homem, inclusive, hoje, o “notebook” eletrônico, a angústia persiste. Eu tinha anotado uma ideia para escrever esta crônica. Normalmente não faço isso, porque nunca me lembro de ter um bloco de anotações à mão e porque sei que, no meu caso, as ideias aproveitáveis costumam vir onde um bloco de anotações não ajudaria, como no chuveiro. Mas desta vez a ideia coincidiu com a proximidade de lápis e papel e anotei a frase que me faria lembrar da ideia. A frase é esta: "Conhece-te a ti mesmo - mas não fique íntimo". A frase está aqui na minha frente. E eu não tenho a menor ideia do que ela deveria me lembrar! A ideia se foi e deixou a frase indecifrável. E a sensação, que muitos homens das cavernas devem ter compartilhado, de que as melhores ideias são as que a gente esquece.
“Conhece-te a ti mesmo – mas não fique íntimo”. O que será que eu queria dizer? “Conhece-te a ti mesmo” é um mandamento reincidente na história do homem, é o que nos receitaram pensadores de Santo Agostinho a Sigmund Freud. Conhecermos-nos sem ficarmos íntimos é um aviso para não nos conhecermos bem demais, não investigarmos com muita profundidade nossos motivos e nossos limites, para não nos autodesiludirmos? Uma forma de nos pouparmos dos nossos defeitos e de não querer nem saber do que somos feitos e o que nos espera? Ou um alerta contra o excesso de amor-próprio, o amor mais tentador porque é o único que é sempre correspondido? Ou apenas uma recomendação para não nos metermos com gente como nós?
Não sei. Não me lembro. Na falta da ideia que motivou a frase, vai esta crônica mesmo. Não, não vou aderir à agenda eletrônica, nem uma à prova d’água que possa ser usada no chuveiro. Se não entendo o que escrevi não vou entender o que gravei, a agenda acabaria cheia de palavras soltas sem sentido, como um código do qual ninguém guardou a chave. Se por uma reversão do tempo e da lógica eu me visse na pré-história com um “notebook” para gravar todas as ideias que me ocorressem, posso me imaginar ligando o “notebook” de manhã para ouvir o gravador no dia anterior, ouvindo a palavra “roda” e pensando: “Roda, roda.. o que será que eu quis dizer com isso?”.
Domingo, 29 de outubro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.